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segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Ordem da Salvação

Por Vinícius Correia

Eleição: Antes da criação, por causa da sua soberana e boa vontade, Deus escolhe algumas pessoas para serem salvas.

“Como também nos ELEGEU NELE antes da fundação do mundo, para que fôssemos santos e irrepreensíveis diante dele em amor” [Efésios 1:4]

“Mas devemos sempre dar graças a Deus por vós, irmãos amados do Senhor, por vosTER DEUS ELEGIDO desde o princípio para a salvação”

[2 Tessalonicenses 2:13]

Chamado: Deus convoca as pessoas para si mesmo através da proclamação humana do evangelho, e eles (os eleitos) respondem com a Fé salvadora.

“Logo a fé vem pelo OUVIR, e o ouvir vem pela PALAVRA DE CRISTO“. [Romanos 10:17]

Regeneração: Deus, secreta e soberanamente, concede vida espiritual a àqueles que foram chamados.

“Ele vos DEU A VIDA quando estáveisMORTOS pelos vossos delitos e pecados” [Efésios 2:1]

Conversão: Voluntariamente respondemos ao chamado do evangelho, arrependendo-nos do nosso pecado e colocando fé em Cristo para salvação.

“Em quem também vós estais, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação; e,TENDO NELE TAMBÉM CRIDO, fostes selados com o Espírito Santo da promessa;” [Efésios 1:13]

“ARREPENDEI-VOS, pois, e convertei-vos, para que sejam apagados os vossos pecados, e venham assim os tempos do refrigério pela presença do SENHOR,” [Atos 3 : 19]

Justificação: Um ato judicial e instantâneo de Deus, no qual Ele declara que os nossos pecados estão perdoados e que a justiça de Cristo é nossa.

“Isto é, Deus estava em CristoRECONCILIANDO CONSIGO o mundo, não lhes imputando os seus pecados; e pôs em nós a palavra da reconciliação.” [2 Coríntios 5:19]

“Pois assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também por um só ato de justiça veio a graça sobre todos os homens para JUSTIFICAÇÃO de vida.” [Romanos 5:18]

Adoção: Um to de Deus no qual ele nos torna membros de sua família.

“Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de SEREM FEITOS FILHOS DE DEUS, aos que crêem no seu nome;” [João 1:12]

“E nos predestinou para FILHOS DE ADOÇÃO por Jesus Cristo, para si mesmo, segundo o beneplácito de sua vontade,” [Efésios 1:5]

Santificação: Um trabalho progressivo de Deus e do homem, ao longo da vida, que nos liberta do pecado e nos torna mais semelhantes a Cristo.

“Segui a paz com todos, e a SANTIFICAÇÃO, sem a qual ninguém verá o Senhor;” [Hebreus 12:14]

“Porquanto está escrito: Sede SANTOS, porque eu sou SANTO.” [1 Pedro 1:16]

“E o mesmo Deus de paz VOS SANTIFIQUEem tudo; e todo o vosso espírito, e alma, e corpo, sejam plenamente conservados irrepreensíveis para a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo.” [1 Tessalonicenses 5:23]

Glorificação: Deus finalmente removerá todos os vestígios do pecado do cristão e lhe dará um corpo ressurreto.

“Porque para mim tenho por certo que as aflições deste tempo presente não são para comparar com a GLÓRIA que em nós há de ser revelada.”           [Romanos 8:18]

“E aos que predestinou a estes também chamou; e aos que chamou a estes também justificou; e aos que justificou a estes também GLORIFICOU.” [Romanos 8:30]

“Assim também a ressurreição dentre os mortos. Semeia-se o corpo em corrupção; ressuscitará em INCORRUPÇÃO” [1 Coríntios 15:42]

Categorias: Teologia

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

O Amor Sacrificial de Deus

O amor de Deus é Sacrificial.
“Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna”. (Jo. 3:16)

O que vem ser um amor sacrificial? O versículo 16 não deixa dúvida quanto a esta questão “Deus amou ao mundo que deu seu filho unigênito”. A palavra deu, tem seu sentido de doar-se, de entregar-se, ou seja, Deus entregou, doou seu Filho unigênito a morte, em sacrifício por amor ao perdido. Deus teve afeição por nós.
A palavra afeição no Latim significa affectus  que tem seu significado mais exato: Tocar, comover o espírito. Neste caso, Deus se comoveu em seu Espírito ao ver a nossa condição lastimável, deplorável em que os nossos primeiros pais nos deixaram. O apóstolo Paulo em sua carta aos Efésios diz que estávamos mortos em nossos delitos e pecados e por tal motivo, não tínhamos condições nenhuma de ir à fonte do verdadeiro amor.
No entanto, o amor verdadeiro é impulsionado a vir até nós, cheio de graça e misericórdia. Deus nos amou ao ponto de sacrificar seu próprio filho.  Mas, porque Deus fez isso? Será que Deus viu alguma coisa boa em nós? Será que Deus foi motivado por algo externo em nós, como por exemplo, alguma ação que justificasse tal ato de amor a ponto de enviar seu filho para morrer em nosso lugar? Na verdade se olharmos para qualquer coisa ou para qualquer gesto nobre que venha de nossa parte não seria suficiente para justificar o amor de Deus a ponto de enviar seu Filho e morrer por nós. Tal justificativa é encontrada na própria essência de Deus, que é amor.. Sendo assim, Foi toda iniciativa dEle em nos amar. A iniciativa nunca parte de nós, mas sim do Eterno. Assim, Deus se comove e demonstra afeição ao enviar seu único filho amado para morrer em nosso lugar e nos libertar da condenação eterna. (CLS)

sexta-feira, 4 de julho de 2014

A Ira de Deus e A Pregação do Evangelho

 

Pr. Derek Thomas - I Simpósio “Os Puritanos” em Belém

O tema de nossa mensagem nesta manhã é muito solene; eu me refiro ao assunto sobre A Ira de Deus. Eu me lembro de uma história ocorrida com Robert McCheyne quando uma vez se encontrou com Horatius Bonar, que havia acabado de pregar sobre este assunto - a Ira de Deus. No decorrer da pregação ele tinha enfatizado o destino do ímpio descrevendo de uma forma muito gráfica o juízo vindouro e entrou em alguns detalhes bíblicos da descrição do inferno. Então McCheyne perguntou a este pregador: “Você pregou sobre isto com lágrimas?”. A solenidade daquele evento é o que eu gostaria de lembrar neste momento. A solenidade deve existir para com todos os atributos de Deus, pois existe um falso ensino ao qual o Dr. Lloyd-Jones sempre se referia e que se chama sandemanianismo. É importante que saibam o que ele significa: é ter conhecimento das doutrinas divinas somente em sua cabeça. Você pode ter as doutrinas bíblicas muito bem definidas em sua cabeça, mas, a não ser que elas toquem os nossos corações e nos levem aos nossos joelhos em oração, e nos motivem à prática das boas obras bíblicas, então estas doutrinas não atingiram o seu objetivo. Quando vamos examinar sobre este atributo de Deus que é a Sua ira, os nossos corações e espíritos devem reagir positivamente a isto.

terça-feira, 1 de julho de 2014

A Justificação pela Fé na perspectiva de João Calvino.


Por: Claudio Souza

Para entender o pensamento de João Calvino em relação a justificação pela fé, é necessário observar pela ótica da soberania de Deus.
Para Calvino, todos os atos na economia da salvação apresentam a vontade soberana de Deus.
Calvino, em suas Institutas, trabalha a justiça de Deus como um ato soberano em conceder graça ao pecador. Ele afirma “que nenhum conhecimento depois da queda valeu para a salvação sem o Mediador, que é cristo que nos leva ao verdadeiro conhecimento para a salvação”.[1] A ênfase estabelecida neste caso, é que somente em Cristo é revelado o verdadeiro conhecimento que resulta na união com o Criador através da fé, como afirma John H. Gerstner “a fé, como a união como Cristo, possui a justiça de Cristo que justifica perfeitamente para sempre”.[2] A fé é um instrumento usado por Deus em conceder graça ao pecador, portanto, todos que crêem se unem a Jesus Cristo em união espiritual, de tal forma que “o pecador não só se torna participante de todos os benefícios, mas também do próprio Cristo”.[3]
“Calvino, foi o grande teólogo do movimento protestante da segunda geração, talvez seja quem nos tem dado as declarações mais claras sobre a sola fides”.[4]Calvino ressalta que a fé é uma vasilha que precisa ser preenchida por Cristo:

“Pois se a fé justificasse por si mesma ou por meio de algum poder intrínseco, por assim dizer, como ela é sempre fraca e imperfeita, ela faria isso só em parte; e assim a justiça que nos conferisse um fragmento da salvação seria defeituosa. Ora, não imaginemos nada assim, mas dizemos que, falando apropriadamente, Deus somente justifica; e então transferimos essa mesma função a Cristo porque ele nos foi dado para justiça. Comparamos a fé a uma espécie de vasilha; porque a não ser que cheguemos vazios e receptivos e com a boca de nossa alma aberta para buscar a graça de Cristo, não somos capazes de receber Cristo. Disso decorre que, ao ensinar que antes de sua justiça ser recebido, Cristo é recebido em fé, não retiramos de Cristo o poder de justificar”.[5]


Neste aspecto, entende-se que Cristo é o único canal de justiça que ministra a perfeita vontade de Deus em levar o homem a à salvação. Portanto, o homem é justificado mediante a fé independente de suas obras que são inúteis para Deus. A problemática encontra-se na condição do homem que, depois da queda, se tornou inútil para com Deus.
Calvino comenta que a raça humana se desviou totalmente do seu Criador. O pecado passou a habitar no coração do homem, fazendo-se assim, um fator primordial para a depravação total da raça humana. Com isso, todas as virtudes que haviam no homem foram corrompidas diante da face do Senhor, como afirma em seu comentário aos Romanos:

Portanto o pecado reside em nós, e não na lei. A cauda do pecado consiste no desejo corrupto de nossa carne. Chegamos à consciência dele através de nosso conhecimento da justiça de Deus que nos é declarada na lei. Não devemos chegar a conclusão de que não houve qualquer distinção entre o certo e errado fora do âmbito da lei, senão que à parte da lei nos achamos ou completamente obscurecidos para discernir nossa própria depravação, ou que nos tornamos inteiramente privados de sendo em virtude de nosso envaidecimento.[6]

Com esse pensamento, Calvino enfatiza que as promessas de Deus não podem estar condicionadas ao esforço humano, uma vez que, a natureza decaída do homem o leva a valores que afetam não somente a moralidade, mas também a crença, conforme Rm. 1:18-27.
Portanto, o homem não pode ter qualquer mérito diante de seu Criador, devido à sua pecaminosidade que o afetou por completo e dominou todo o ser, como Calvino mesmo relata nas Institutas:

Pela qual razão, disse eu que desde que Adão se apartou da fonte da justiça todas as partes da alma vieram a ser possuídas pelo pecado. Pois, nem apenas o seduziu um desejo inferiou; ao contrário, a própria cidadela da mente ocupou a nefanda impiedade e ao mais recôndito do coração penetrou o orgulho, de sorte que é improcedente e estulto restringir a corrupção que daí emanou apenas ao que chamam de impulsos sensuais, ou chamar de acendelha que atraia, excite e arraste ao pecado somente a parte que lhes é a sensualidade.[7]

O que Calvino expressa é a atual condição do homem, ou seja, após a queda, todas as faculdades do homem se corromperam e, consequentemente, todo o conhecimento de Deus foi distorcido com a queda, fazendo o homem perder a harmonia com o seu criado. Este processo, no entanto, fez com que o homem se anulasse para com Deus em relação à sua justiça, impossibilitando uma verdadeira adoração e o conhecimento de Deus e de si mesmo.
O entendimento neste caso, é que, “a depravação adâmica se tornou hereditária para toda a raça humana”,[8] de modo que toda a natureza humana se faz condenável à ira de Deus e, consequentemente, todas as obras que o homem possa fazer para com o seu criador “são nulas e que, de fato, resultam em adultérios, fornicações, furtos, ódios, homicídios nas quais chamamos de furtos do pecado”.[9] Sendo assim, a Soberania de Deus intervindo na vida do homem, faz-se necessária para que este tenha a salvação.
Portanto, a queda do homem trouxe uma calamidade na vida em toda a criação, por isso, Deus abomina a iniqüidade. O pecador não pode achar graça em si mesmo enquanto é pecador, porque a salvação é da infinita misericórdia de Deus em cumprir o propósito que estava estabelecido desde a fundação do mundo, cof. Ef. 1:11 “nEle, digo, no qual fomos também feitos herança, predestinados segundo o propósito daquele que faz todas as cousas conforme o conselho de sua vontade”.
Nesta linha de pensamento, Calvino é claro quanto a esta questão. Ele ressalta que o ser humano é incapaz de produzir uma justiça propriamente sua que não seja em Cristo. Uma vez que a morte de Cristo é a nossa redenção, como ele expressa em seu comentário aos Gálatas:

Porquanto ele sofreu para conquistá-la para nós; e por que haveríamos de buscar em outra fonte o que nós mesmos podemos nos dar? Se a morte de Cristo é a nossa redenção, então éramos cativos; se ela é pagamento, então éramos devedores; se é expiação, então éramos culpados; se é purificação, então éramos imundos. E assim, em contrapartida, aquele que atribui sua purificação, seu perdão, a expiação, sua justiça ou seu livramento às suas obras, está invalidando a morte de Cristo.[10]

Neste caso, Calvino, ao tratar da justificação, contrapõe-se a todos que tentam invalidar a morte de Cristo como obra expiatória para os nossos pecados, assim, como a eficácia de Cristo em nos manter libertos do pecado através da justificação pela fé somente. Ele faz uma refutação ao pensamento papista do século XVI na insistência de adquirir uma justificação pelas obras.[11] Com isso, Calvino trabalha em defesa da teologia paulina, porque a teologia católica medieval replica os erros judaicos na insistência da salvação pelas obras. Assim, ao tratar a questão das boas obras, ele ressalta “que o ser humano caído não pode fazer o bem que Deus requer”.[12]Segundo ele, as obras não apresentam nenhum mérito a Deus, porque todas as cousas se fizeram inúteis para o Criador. Portanto, quer queira ou não, tudo se poluiu e se corrompeu aos olhos de Deus. Calvino define esta questão em suas Institutas da seguinte forma:

Além disso, irei mais longe: [se,] porventura, haja qualquer obra que de nenhuma impureza ou imperfeição mereça ser argüida. E como haveria [obra tal] diante desses olhos aos quais nem estrelas são suficientemente puras [Jó. 25.5], nem anjos suficientemente justos? [Jó. 4.18]. Destarte, será [ele] compelido a conceder que nenhuma boa obra exista que não haja sido poluída não só de transgressões a si apostas, como também de sua própria corrupção, de sorte que não tenha a honra de justiça.[13]

Calvino entende que só pela união em Cristo as nossas obras são justificadas e passando assim a ter algum valor.
As boas obras no pensamento de Calvino são umas expressões de gratidão para com Deus e através deste pensamento, Calvino ofereceu grandes contribuições à teologia reformada ou calvinista. “A sua maior contribuição foi as Institutas”[14] Sob sua liderança, “Genebra tornou-se uma inspiração e um modelo aos de fé reformada de outros lugares em um refúgio para os perseguidos por causa da fé reformada”.[15]

[1] CALVINO, João. As Institutas, Vol. II, p. 102
[2] GERSTNER, Dr, John H. Justificados pela Fé Somente. p.95. em Cláudio Antônio Batista (editor).
[3] CALVINO, APUDD. MCGRATH, Alister. A vida de João Calvino, p. 193
[4] ARMSTRONG, Dr. Jonh. op.cit., p. 101
[5] ARMSTRONG. op. Cit., 102
[6] CALVINO, João. Comentário à Sagrada Escritura Exposição de Romanos – p. 235
[7] CALVINO. op.cit., Vol. II, p.11
[8] CALVINO. op. cit., Vol. II, p. 07
[9] Idem, Ibid, p.10
[10] CALVINO, João . Comentário aos Gálatas. p. 78
[11] CALVINO. Institutas. Vol. III, p. 261
[12] Idem, p. 55
[13] Idem, Ibid. p. 276
[14] CAIRNS, E. Earle. O Cristianismo Através dos Séculos. p. 254
[15] Idem.

Referências Bibliograficas
CALVINO, J. As Institutas ou Tratado das Religiões Cristãs. Tradução de Waldir Carvalho Luz. CEP S/C, Volume II São Paulo, SP. 1982, 445 pp.
CALVINO, J. As Institutas ou Tratado das Religiões Cristãs. Tradução de Waldir Carvalho Luz. CEP S/C, Volume III São Paulo, SP. 1989, 727 pp.
CALVINO, J. Gálatas. Tradução Valter Graciano Martins. São Paulo: Editora Edições Paracletos, 1998. 192pp
CAIRNS, Earle E. O Cristianismo Através dos Séculos – Uma história da Igreja Cristã. Tradução Israel Belo Azevedo. 2ª ed. São Paulo: 1998. 328 pp.
Justificados pela Fé Somente. Trad. Hope Gordon. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 1995. 143 pp.

Doutrina da Perseverança dos Santos: Inferências Lógicas



Rev. Paulo Anglada
A doutrina reformada da perseverança dos santos é inferida:
Das demais doutrinas da graça e dos atributos divinos
Aqueles que reconhecem a corrupção do coração humano em conseqüência da queda (a depravação total) têm que aceitar que a salvação vem do Senhor, o qual é soberano para salvar (eleição incondicional). E se a salvação provém da eleição soberana, estes também têm necessariamente que crer na morte expiatória de Cristo na cruz pelos eleitos (eleição limitada). Estes, por sua vez, precisam admitir a soberania do Espírito Santo em aplicar a obra da redenção aos que foram redimidos por Cristo, chamando-os irresistivelmente para a salvação (graça eficaz). E, se qualquer uma dessas doutrinas for aceita como verdadeira, tem-se que admitir que a salvação dessas pessoas indubitavelmente se consumará. Uma doutrina leva inevitavelmente à outra, não apenas dentro da lógica humana, mas na própria lógica bíblica, conforma Romanos 8.29-30. Se o homem não pode salvar-se, e se Deus determinou salvar incondicionalmente alguns, ninguém poderá conceber que os propósitos de Deus não consumam e Seus desígnios sejam frustrados, sem negar os atributos divinos da soberania, onisciência, onipotência, imutabilidade etc. Se Deus é Deus, a obra de salvação planejada, efetuada e aplicada soberana e graciosamente será consumada (concluída) – também graciosa e soberanamente – para o louvor da glória da Sua graça.

O que é Fé Reformada?



Dr. John Richard de Witt


Introdução – Definindo a Questão

Uma das grandes questões que nós temos que encarar constantemente, como cristãos evangélicos de convicções reformadas, é a questão da identidade. O Assunto apresentado através daquela pergunta reiterada com freqüência : O que é que significa ser reformado? E ainda mais precisamente: O que significa ser reformado não apenas no sentido histórico da palavra, mas no contexto atual, na situação em que nos encontramos na igreja, na nação e no mundo?

Temos a intenção, é claro, de ser fiéis à nossa herança, à grande tradição na qual nós nos encontramos e que deu expressão tão brilhante e convincente às verdades da Palavra de Deus, afirmadas pela igreja Cristã antiga e, num certo sentido, redescobertas na época da Reforma protestante. Mas esta nossa intenção, de nos atermos ao que é bom, requer mais do que uma afirmação de determinação. Ela também demanda definição contemporânea e claramente clama por um delineamento que fará, para nosso próprio tempo, o que outros fizeram em gerações anteriores. Sempre temos de nos relembrar, a nós mesmos, que não fazemos teologia num vácuo; que a ciência da teologia não começou com a nossa entrada no mundo. Às vezes tem-se a impressão, pela forma como alguns pregam e escrevem, que toda a cristandade esperava pelo advento dos seus ministérios, e que é somente por meio deles, e pelo que têm a dizer, que a fé cristã começou a fazer sentido e a ser entendida em todas as suas implicações. Mas tal abordagem é totalmente inaceitável; aqueles que falam dessa maneira introduzem, ao mesmo tempo, seus próprios absurdos como se eles fossem o próprio evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo. Devem, assim, ser repreendidos e seu ensino deve ser repudiado.

quinta-feira, 26 de junho de 2014

A DOUTRINA DA EXPIAÇÃO PARTICULAR




Um estudo detalhado de 1 João 2.1-2

John Owen

Esta é outra passagem das Escrituras freqüentemente usada por aqueles que iriam argumentar que morte de Cristo é para todos e cada um dos homens. Diz-se que a expressão "todo o mundo" tem que significar "todas as pessoas do mundo", e que a expressão contrastante "não somente pelos nossos" inclui, deliberadamente, todos e cada um dos homens como aqueles pelos quais Cristo morreu, além dos crentes.

Eu poderia responder isso abreviadamente, dizendo que como em outras passagens "o mundo" significa "as pessoas que vivem no mundo"; assim "todo o mundo", não significa mais do que "pessoas vivendo em todo o mundo", como é mencionado em Apocalipse 5.9, a respeito dos redimidos. Mas visto que esse texto em 1 João é tão usado, vou sugerir que se faça um estudo mais detalhado, usando para isso quatro perguntas.

1. A quem João está escrevendo? Embora seja verdade que as Escrituras são para toda a Igreja, contudo, muitas de suas partes foram escritas a determinadas pessoas em particular. Tais partes devem ser entendidas à luz dessa verdade. Notemos portanto que:

a. João foi especialmente um apóstolo aos judeus – Gálatas 2.9
b. Ele escreveu àqueles que ouviram previamente a Palavra de Deus (1 João 2.7) e nós sabemos que a Palavra de Deus era "primeiro ao judeu".
c. o contraste que João fez entre "nós" e "o mundo" deixa claro que ele escreve àqueles que, como ele mesmo, eram judeus.
d. João freqüentemente adverte contra os falsos profetas por exemplo, 1 João 2.19. Visto que ele escreveu que tais mestres "saíram de nós", ele está obviamente escrevendo aos seus compatriotas.

Lembrando a aversão nacional dos judeus contra todos os gentios e a opinião judaica de que só a nação deles constituía o povo de Deus, o que poderia ser mais natural do que João enfatizar que Jesus morreu não somente pelos judeus crentes, e sim por todos os crentes espalhados pelo mundo inteiro? Temos um outro versículo das Escrituras que enfatiza a mesma coisa: João 11.52. João está claramente desejando evitar que os judeus-cristãos caiam no velho erro de supor que eles são os únicos cristãos. João insiste em que havia gentios cristãos, também, no mundo inteiro. Não há aqui uma doutrina no sentido de que Cristo morreu por todos os homens.

2. Por que João estava escrevendo? Ele escreveu para confortar os crentes angustiados por seus pecados, a fim de que eles não se desesperassem. "Se alguém pecar..." Daí, observamos que:

a. somente os crentes seriam confortados pelo fato de Cristo ser o seu advogado.
b. somente os crentes podem ser confortados; os incrédulos estão sob a ira de Deus.
c. João descreve como "filhinhos... cujos pecados são perdoados".

Em outras palavras o alvo de João se aplica somente aos crentes. Como pode servir de conforto aos crentes, dizer-lhes que Cristo morreu por todos e por cada um dos homens, muitos dos quais não são salvos? Este versículo não oferece nenhum conforto, a menos que seja entendido como significando que Cristo é o Salvador de todos os crentes em qualquer parte do mundo.

3. Qual é o significado de "propiciação"? A palavra grega aqui traduzida como propiciação está relacionada com a palavra traduzida como "propiciatório", em Hebreus 9.5. Isso nos dá um entendimento do significado da palavra. O "propiciatório" era a sólida placa de ouro usada para cobrir a arca na qual estavam as tábuas da lei (Êxodo 25.17-22). A lei, que acusava os homens de serem pecadores, estava escondida pelo propiciatório. Essa era uma ilustração de como Jesus Cristo, pela Sua morte, escondeu a lei de Deus, de modo que ela não pode acusar nenhum daqueles que crêem nEle. Jesus é a propiciação (propiciatório) do crente. Poderia ser dito que todos e cada um dos que estão no mundo são livres de serem condenados como pecadores? Poderia ser realmente discutido que Cristo é a propiciação de todo o mundo, nesse sentido?

4. Qual é, então o significado de "todo o mundo"? Esta frase ocorre várias vezes no Novo Testamento, e freqüentemente não significa todos e cada um dos homens. Por exemplo:

Lucas 2.1 – Mas o alistamento somente aconteceu no Império Romano.

Romanos 1.8 – Mas muitas partes do mundo não tinham ouvido a respeito da igreja de Roma naquele tempo.

Colossenses 1.6 – Mas muitas partes do mundo ainda não haviam recebido o evangelho.

Apocalipse 3.10 – O mundo inteiro deve sofrer – mas isso não significa todos, sem exceção, pois alguns serão preservados disso.

Nessas e em outras passagens, todo o mundo significa nada mais que muitas pessoas, indefinidamente.

Além disso, em certos versículos das Escrituras, frases como "toda a carne" significam nada mais que todos os tipos de pessoas, como por exemplo: Salmo 98.3; Joel 2.28 (cumprida em Atos 2.17).

Algumas vezes, de fato, o mundo significa todos¸exceto os crentes, como por exemplo: 1 João 5.19; Apocalipse 12.9.

Esses exemplos nos mostram, claramente, que não é essencial entender a expressão "todo o mundo" como sentido de "todos inclusive". O sentido não precisa ser outro senão o que o contexto da expressão sensatamente permite.

Concluo que esta passagem das Escrituras se refere à obra de Cristo para todos os crentes, judeus e gentios, igualmente. A passagem diz que Cristo é verdadeiramente a propiciação deles. Ninguém argumenta com seriedade que todos os homens, em todos os lugares, são realmente salvos por Cristo. Também de nada adianta sugerir que Cristo é uma propiciação suficiente para todos e cada um dos homens. Jacó não teria sido confortado pelo simples fato de ouvir dizer que havia bastante trigo no Egito. Ele teria morrido de fome se o trigo não houvesse se tornado possessão dele. Da mesma maneira, Cristo só pode ser um conforto para aqueles que, em todo o mundo, são realmente salvos.


John Owen, Por Quem Cristo Morreu? São Paulo: PES, 1986. pp. 67-69.

quarta-feira, 25 de junho de 2014

A Centralidade de Palavra


  
Na visão reformada, a Bíblia ocupa o centro do culto, pois é através dela que Deus nos fala. Calvino afirmou: "... a função peculiar do Espírito Santo consiste em gravar a Lei de Deus em nossos corações" [1]. A Igreja é a "escola de Deus" [2]. O Espírito é o "Mestre" [3] (o “Mestre interior”)[4]. Para progredir nessa escola, “...devemos antes renunciar nosso próprio entendimento e nossa própria vontade” [5].  
A pregação não deve ser rejeitada (lTs 5:19-21); deve ser entendida como a Palavra de Deus para nós; recusá-la é o mesmo que rejeitar o Espírito (cf. lTs 4:8). Como há falsos pregadores e falsos mestres, é necessário "provar" o que está sendo proclamado para ver se o seu conteúdo se coaduna com a Palavra de Deus (At 17: 11-12/ I Jo. 4: 1-6). No entanto, os homens querem ouvir mais o reflexo de seus desejos e pensamentos, a homologação de suas práticas. Assim, a palavra, que deveria ser profética, tende com freqüência a se tornar apenas apetecível ao "público-alvo", aos seus valores e devaneios, ou, então, nós, pregadores, somos tentados a usar a "eloqüência" para compartilhar generalidades da semana, sempre, é claro, com uma alusão bíblica aqui ou ali, para justificar a "pregação" [6].   
O fato é que uma geração incrédula é sempre crítica para com a palavra profética. Marvin Vincent estava certo ao declarar: "A demanda gera o suprimento. Os ouvintes convidam e moldam seus pregadores. Se as pessoas desejam um bezerro para adorar, o ministro que fabrica bezerros logo é encontrado" [7]. É preciso atenção redobrada para não cair nessa armadilha, uma vez que não é difícil confundir os efeitos de uma mensagem com o conteúdo do que anunciamos: a pregação deve ser avaliada pelo seu conteúdo, não pelos resultados. Esse assunto está ligado à vertente relacionada ao crescimento de Igreja. Iain Murray está correto ao afirmar:  
o crescimento espiritual na graça de Cristo vem em primeiro lugar. Onde esse crescimento é menosprezado em troca da busca de resultados, pode haver sucesso, mas será de pouca duração e, no final, diminuirá a eficácia genuína da Igreja. A dependência de número de membros ou a preocupação com números freqüentemente tem se confirmado como uma armadilha para a Igreja.[8]  
A confusão entre conteúdo e resultado é fácil de ser feita porque, como acentua John MacArthur Jr.: "O pregador que traz a mensagem que mais necessitam ouvir é aquele que eles menos gostam de ouvir".[9] Portanto, a popularidade pode, em muitos casos, ser um atestado da infidelidade do pregador na transmissão da voz profética. Lembremo-nos: "Toda a tarefa do ministro fiel gira em torno da Palavra de Deus - guardá-la, estudá-la e proclamá-la".[10] E: "Ninguém pode pregar com poder sobrenatural, se não pregar a Palavra de Deus".[11] Quanto mais confiarmos no poder de Deus operante através da Palavra, menos estaremos dispostos a confiar em nossa suposta capacidade. A Palavra que pregamos jamais será ineficaz no seu propósito.[12]  
O pregador não "compartilha" opiniões nem dá "opiniões" sobre o texto bíblico, nem faz paráfrase irreverente do texto. O objetivo é expressar o que Deus disse sob a iluminação do Espírito. Pregar é explicar e aplicar a Palavra aos ouvintes. O aval de Deus não é sobre nossas teorias e escolhas, nem sobre a "graça" de piadas, mas sobre sua Palavra. Portanto, o pregador prega o texto, de onde provém a verdade de Deus para o seu povo. "Quando nos propomos a expor um texto, precisamos declarar exatamente o que o texto afirma".[13]  
Quando Cristo retomar, certamente ele não se interessará por nossa escola homilética ou se fomos "progressistas" ou "conservadores", mas sim se fomos fiéis à Palavra em nossa vida e pregação. Devemos estar sinceramente atentos ao que o Espírito diz à Igreja através da Palavra. Isto é válido para quem ouve e para quem prega.  
Outra verdade que precisa ser ressaltada é que apesar de muitos de nós não sermos "grandes" pregadores ou existirem pregadores infiéis, Deus fala. Por isso, há a responsabilidade de ambos os lados: quem prega, pregue a Palavra; quem ouve, ouça com discernimento a Palavra do Espírito de Deus. 

A pregação foi o meio deliberadamente escolhido por Deus para transformar pessoas e edificar seu povo, preservando a sã doutrina através da Igreja, que é o baluarte da verdade.  

Autor. Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa Fonte: Fundamentos da teologia reformada, pg. 139-142, Editora Mundo Cristão. Compre este maravilhoso livro em www.mundocristão.com.br   
Nota: [1] O livro dos Salmos, vol.2, p228. [2] As Pastorais, p. 136; O profeta Daniel:1- 6, vol. 1, p.190. [3] Exposição de Romanos, p. 58. [4] As institutas, III 1.4; III. 2. 34; IV. 14. 9. [5] Exposição de I Coríntios. P. 100. [6] Veja D Martyn Lloyd-Jones, As insondáveis riquezas de Cristo, p. 52 [7] Word studies in the New Testament, vol. 4, p. 321. [8] “A igreja crescimento e sucesso”, em fé para hoje,n°6, 2000 [9]Com vergonha do evangelho,p. 35. Packer faz uma pergunta inquietante: “Costumamos lamentar, hoje em dia, que os ministros não sabem pregar; mas não é igualmente verdadeiro que nossas congregações sabem ouvir?”(entre os gigantes de Deus: Uma visão puritana da vida cristã, p. 275). [10] John F. MacArthur Jr., Com vergonha do evangelho, p. 29. [11] Idem, p. 30. [12] Veja Bryan Chapell, Pregação cristocêntrica, p. 22. [13] Kenneth A. Macrae, “ A pregação e o perigo do comprometimento”, em: Fé para hoje, n° 7, p. 4. 

Sola Scriptura (Somente as Escrituras)


  

1. Princípios da Reforma: sola gratia, sola fides, solus Christus, sacerdócio universal dos fiéis, sola Scriptura .   
2. Sola Scriptura: somente a Escritura é a suprema autoridade em matéria de vida e doutrina; só ela é o árbitro de todas as controvérsias (= a supremacia das Escrituras). Ela é a norma normanda ("norma determinante") e não a norma normata ("norma determinada") para todas as decisões de fé e vida.   
3. A autoridade da Escritura é superior à da Igreja e da tradição. Contra a afirmação católica: "a igreja ensina" ou "a tradição ensina," os reformadores afirmavam: "a Escritura ensina."   
4. A experiência pessoal dos reformadores com as Escrituras e com o Cristo revelado nas Escrituras. Lutero: "Quando eu estava com 20 anos de idade, eu ainda não havia visto uma Bíblia. Eu achava que não existiam evangelhos ou epístolas exceto as que estavam escritas nas liturgias dominicais. Finalmente, encontrei uma Bíblia na biblioteca e levei-a comigo para o mosteiro. Eu comecei a ler, reler e ler tudo novamente, para grande surpresa do Dr. Staupitz."   
5. Para os reformadores, a Bíblia não era um livro de doutrinas e proposições a serem aceitas intelectualmente ou mediante a autoridade da igreja, mas uma revelação direta, viva e pessoal de Deus, acessível a qualquer pessoa.   
6. Daí a preocupação de colocar as Escrituras nas línguas vernaculares. Lutero e sua tradução no castelo de Wartburgo. Calvino e sua introdução ao Novo Testamento francês de seu primo Robert Olivétan (1535).  

7. A autoridade das Escrituras é intrínseca: a Igreja não confere autoridade às Escrituras, mas apenas a reconhece. Essa autoridade decorre da origem divina das Escrituras.   
8. Existem evidências internas e externas da inspiração e divina autoridade das Escrituras, mas estes atributos não são passíveis de "prova." A única evidência que importa é o "testemunho interno do Espírito" no coração do leitor. Ênfase de Calvino: "A menos que haja essa certeza [pelo testemunho do Espírito], que é maior e mais forte que qualquer juízo humano, será fútil defender a autoridade da Escritura através de argumentos, ou apoiá-la com o consenso da Igreja, ou fortalecê-lo com outros auxílios. A menos que seja posto este fundamento, ela sempre permanecerá incerta" (8.1.71).   
9. A Igreja não se coloca acima da Escritura pelo fato de ter definido o seu cânon (Novo Testamento). A Igreja apenas reconheceu o que já era aceito há muito tempo pelos cristãos. Paralelo: a observância do domingo e sua oficialização por Constantino. A afirmação de que a igreja estabeleceu o cânon é verdadeira; mas o evangelho estabeleceu a igreja, e a autoridade da Escritura não está no cânon, mas no evangelho.   
10. Não foi a igreja que formou a Escritura, mas vice-versa. A Igreja está edificada "sobre o fundamento dos apóstolos e profetas" (Ef 2:20), ou seja, o evangelho, que está contido nas Escrituras e é a sua essência. Lutero: a igreja, longe de ter prioridade sobre a Escritura, é na realidade uma criação da Escritura, nascida do ventre da Escritura.   
11. Por isso, Cristo é o centro e a chave das Escrituras (ênfase especial dos reformadores). A Escritura se interpreta a si mesma ("analogia da Escritura"), sempre à luz do princípio cristológico. A mensagem central da Bíblia, o evangelho, é a única chave para a interpretação bíblica.   
12. Essa ênfase cristocêntrica, levou Lutero a estabelecer distinções entre os livros da Bíblia. Nem todos revelam a Cristo com igual clareza. Os evangelhos e Paulo o fazem de maneira profunda. Já a carta de Tiago tem uma limitada ênfase cristológica ("epístola de palha").   
13. A interpretação alegórica e os múltiplos sentidos atribuídos à Escritura, obscurecem a sua mensagem. Os reformadores deram ênfase ao sentido comum, histórico-gramatical.   
14. Os "entusiastas" estavam errados ao apelarem para revelações diretas fora das Escrituras. O Espírito Santo é o autor último das Escrituras, o inspirador dos profetas e apóstolos. Ele não pode contradizer-se.   
15. Por outro lado, o "princípio do livre exame" não significa interpretar as Escrituras de modo subjetivo e exclusivista. É preciso levar em conta a história e o testemunho da Igreja. Os reformadores não sentiram a necessidade de abandonar os credos do cristianismo antigo e o testemunho dos Pais da Igreja. Todos estes, porém, devem ser julgados e avaliados pela Escritura.  

7. A autoridade das Escrituras é intrínseca: a Igreja não confere autoridade às Escrituras, mas apenas a reconhece. Essa autoridade decorre da origem divina das Escrituras.   
8. Existem evidências internas e externas da inspiração e divina autoridade das Escrituras, mas estes atributos não são passíveis de "prova." A única evidência que importa é o "testemunho interno do Espírito" no coração do leitor. Ênfase de Calvino: "A menos que haja essa certeza [pelo testemunho do Espírito], que é maior e mais forte que qualquer juízo humano, será fútil defender a autoridade da Escritura através de argumentos, ou apoiá-la com o consenso da Igreja, ou fortalecê-lo com outros auxílios. A menos que seja posto este fundamento, ela sempre permanecerá incerta" (8.1.71).   
9. A Igreja não se coloca acima da Escritura pelo fato de ter definido o seu cânon (Novo Testamento). A Igreja apenas reconheceu o que já era aceito há muito tempo pelos cristãos. Paralelo: a observância do domingo e sua oficialização por Constantino. A afirmação de que a igreja estabeleceu o cânon é verdadeira; mas o evangelho estabeleceu a igreja, e a autoridade da Escritura não está no cânon, mas no evangelho.   
10. Não foi a igreja que formou a Escritura, mas vice-versa. A Igreja está edificada "sobre o fundamento dos apóstolos e profetas" (Ef 2:20), ou seja, o evangelho, que está contido nas Escrituras e é a sua essência. Lutero: a igreja, longe de ter prioridade sobre a Escritura, é na realidade uma criação da Escritura, nascida do ventre da Escritura.   
11. Por isso, Cristo é o centro e a chave das Escrituras (ênfase especial dos reformadores). A Escritura se interpreta a si mesma ("analogia da Escritura"), sempre à luz do princípio cristológico. A mensagem central da Bíblia, o evangelho, é a única chave para a interpretação bíblica.   
12. Essa ênfase cristocêntrica, levou Lutero a estabelecer distinções entre os livros da Bíblia. Nem todos revelam a Cristo com igual clareza. Os evangelhos e Paulo o fazem de maneira profunda. Já a carta de Tiago tem uma limitada ênfase cristológica ("epístola de palha").   
13. A interpretação alegórica e os múltiplos sentidos atribuídos à Escritura, obscurecem a sua mensagem. Os reformadores deram ênfase ao sentido comum, histórico-gramatical.   
14. Os "entusiastas" estavam errados ao apelarem para revelações diretas fora das Escrituras. O Espírito Santo é o autor último das Escrituras, o inspirador dos profetas e apóstolos. Ele não pode contradizer-se.   
15. Por outro lado, o "princípio do livre exame" não significa interpretar as Escrituras de modo subjetivo e exclusivista. É preciso levar em conta a história e o testemunho da Igreja. Os reformadores não sentiram a necessidade de abandonar os credos do cristianismo antigo e o testemunho dos Pais da Igreja. Todos estes, porém, devem ser julgados e avaliados pela Escritura.   
16. Lutero nada sabia de um conhecimento puramente objetivo, desinteressado ou erudito da Bíblia. "A Palavra de Deus é viva. Isto significa que ela vivifica aqueles que nela crêem. Portanto, devemos correr para ela antes de perecermos e morrermos." A experiência é necessária para o entendimento da Palavra: esta não deve ser simplesmente repetida ou conhecida, mas vivida e sentida. Na Escritura o Deus vivo e verdadeiro sempre confronta o leitor em julgamento e graça.   
17. Alguns textos relevantes: Sl 19:7-11; Sl 119; Jo 5:39; Rm 15:4; 2 Tm 3:16-17.  

Autor: Alderi Souza de Matos Fonte: http://www.monergismo.com/textos/cinco_solas/solascriptura_alderi.htm  


segunda-feira, 23 de junho de 2014

DO LUGAR DOS ESTUDOS EM JOÃO CALVINO NA FORMAÇÃO DOS PASTORES DA IGREJA PRESBITERIANA DO BRASIL



Carlos Ribeiro Caldas Filho*

RESUMO
A Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB) é denominação evangélica, conservadora e confessional, alinhada com os princípios e pressupostos teológicos da Reforma Protestante do século XVI, mais precisamente com a vertente conhecida como calvinista, que tem, como o próprio nome indica, em João Calvino (1509-1564) sua principal referência de articulação. A questão levantada pelo presente ensaio é: que lugar tem ocupado os estudos em João Calvino na preparação formal que a IPB proporciona aos seus (futuros) pastores?

PALAVRAS-CHAVE

Educação teológica – calviniana – teologia sistemática.

            Os primórdios da educação teológica na IPB      

A Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB) tradicionalmente tem considerado a data 12 de agosto de 1859, que marca a chegada ao Brasil do jovem Ashbell Green Simonton, o primeiro missionário enviado pelo Board (Junta de Missões) de Nova Iorque da Igreja Presbiteriana dos Estados Unidos, como sendo sua data de aniversário. Em um ministério curto, de apenas oito anos, Simonton, mercê de Deus, planta igreja (a Igreja Presbiteriana do Rio de Janeiro, organizada em 1862, que lógica e conseqüentemente, é a igreja “mãe” de todo o presbiterianismo brasileiro), funda o Imprensa Evangélica, o primeiro jornal evangélico do Brasil, um presbitério (o Presbitério do Rio de Janeiro) e ainda o primeiro seminário teológico evangélico do Brasil, também na cidade do Rio de Janeiro[1]. Desde o início de sua trajetória neste país, a IPB tem manifestado preocupação quando à formação teológica de seus pastores. Aliás, a tradição presbiteriana em todo o mundo tem se caracterizado desde seus primórdios, no século XVI, pelo zelo na formação de pastores com alto nível de conhecimento teológico. No Brasil, verifica-se, como acima afirmado, que muito cedo um seminário teológico é organizado. De fato, sem qualquer ufanismo denominacional, fica-se impressionado ao constatar que, tão cedo quanto 1867 (apenas oito anos após a chegada de Simonton ao Brasil e cinco após a organização da Igreja Presbiteriana do Rio de Janeiro), já havia candidatos ao ministério pastoral. Miguel Gonçalves Torres, Antonio Trajano (de Portugal) e Modesto Perestrelo de Barros Carvalhosa (da Ilha da Madeira) iniciaram seus estudos teológicos, sob a orientação de Simonton, Carlos Wagner (pastor da igreja luterana) e Francis Schneider (o terceiro missionário que a Junta de Nova Iorque enviou ao Brasil). Em 1868, Antonio de Cerqueira Leite, paulista de Brotas, junta-se ao trio lusitano[2]. A preparação acadêmica incluía estudos em língua grega, história eclesiástica, ciências, matemática e teologia. A experiência do “Seminário Primitivo” tem quatro anos de duração[3]. Em 8 de setembro (data considerada aniversário do atual Seminário Presbiteriano do Sul em Campinas) de 1888 o primeiro Sínodo da IPB resolve “como interesse da mais alta importância” organizar “um seminário teológico o mais breve possível”[4].